«Não escrevo para ti. Se algum dia soubesses o que digo por entre mágoas, não sei se aguentarias. E não só o que escrevo. Porque por entre estas palavras, e todas as minhas incontáveis linhas, estão noites de vazio, sonhos que de sonho não vêm, movimentos de desespero. Tantos. Imagens que, imagino, não as queres guardar. Se os soubesses, todos os meus gritos psicológicos, um por um, escondidos entre risos de melancolia e lágrimas de prazer, pensarias talvez que nada mais sou do que tu. Resto de nada, espelho de tudo. Mas entre tudo isto, tu és quem tem mais inteligência. (Se é que se pode chamar inteligência às coisas que tu fazes.) Rebolas e vences, por entre caras escondidas, guardas amores como se do último dia se tratasse. E que último! Finges ser poeta para as musas que te sopram. Por quem passas (?). Mal o sabes, mas elas (também) sentem. Dizendo claro, tu até sabes! Mas só tu és poeta de rua, que tropeça, cai e pede esmola a quem passa, e de rico se afortuna, com coisa mais bela e maior. As musas, passam e continuam seu destino, mas quem as marca és tu. A ti, quem te marca? Talvez teu pai, tua mãe, e a filha de ninguém. Ela, será que se pode dizer? A quem te deste e de quem tanto bebeste. Chegou a ser feia, porque assim o quiseste. – Talvez seja melhor falar na primeira pessoa. – Sou eu, a mais antiga. Aquela que pisaste e depois fizeste mundo, lembras-te? A quem olhavas tosco e mandavas teus sonetos. Só para mostrar, só para mostrar. Eu, aquela que não queria ver, de nada se importava e de tudo, ria. Sorria, ainda mais. E via-te, e sorria. E via-o, e sorria. E tu vias, vias tudo, e nada fazias. Forte, muito forte, meu rapaz! Era inocente, a tua amiga. Mas que coisa… depois viraste do avesso, e aí ela te viu. Não gostei do que vi, e mesmo assim deixei-O ser. Não gostei do que senti (juro que não!), e no fim, eu não gostava era de mim. Mas tu não vais ficar. Talvez não seja adivinha, mas uma coisa sei que serás: nada. Não me explico como falando em mim (embora alguém saiba, há bem melhor que “P” escrito no peito), mas sim em ti. Se de amor queres cheirar, cheira agora tua musa, que mais bela que eu será de certeza. Não choro quando o digo - raro -, mas a ti já me dei muitas palavras. Vê antes os actos, que não fizeste, que não deixasses rasto de ti quando o sentisses. Espero que seja bom. Ter esse Senhor que nunca para ti existiu. (E não me repito: porque nunca o quiseste.)»
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