Entro. Depois de tudo, sei que, aqui, tenho mais de metade de mim guardada. A rua e as pastilhas de que gostamos são algo que já foi demasiado vivido. E, agora, ponho o pé no que é a chegada da passagem (pela escola básica em que o diferencial de sexos continua a existir). Entro. Vejo os teus olhos a aproximarem-se dos meus, vejo a porta da tua casa a fechar. Depois de ma mostrares,vejo os teus olhos a explicarem-me a utopia do que este sítio significa. Vejo nós a rirmos do que não consegues limpar das pombas. Vejo-nos ali, sentados na cadeira, a rirmos do que tudo foi. Vejo-nos, felizes, a rir de tudo o que acontece nos nossos milissegundos. Nossos. Apenas nossos, pelo que o eco da porta nos concede. Dizes entretanto querer-me o quanto os teus olhos podem ficar perto dos meus. A rirmos do que fomos. A apresentar planos de futuro incríveis e a perguntarmos a um alguém que não nós, um meio que é uma bola de cristal bonita e cheia dos nossos reflexos, da validade das nossas perspectivas de futuro. Dos padrinhos dos nossos filhos. (Do que teria mudado, pergunto-te eu sem to ter perguntado.) Tu, fingindo que não entendes, traduzes alto o algo que a minha cabeça pensou, num tom de quem não entende bem o propósito de nos perguntarmos sobre o passado; que já não pode ser mudado senão num outro e - sem certezas - possível futuro. "Sim... O que me aconteceria?" Tu, como sempre, investes nas palavras da conversa que me faz chorar. Bato-te leve e fecho-te a boca com as minhas mãos, respirando alto para conseguir não chorar. "Não, por favor. Já sabes que isso, não..." Ficamos neste suspense de revisita ao passado enquanto me agarras (a mente, talvez, o corpo) e me dizes, sem dizer, querer-me o quanto os teus olhos podem ficar perto dos meus. Desta vez, confessas algo entre os teus olhos, e eu transbordo daquela vergonha que tu não gostas de despoletar em mim. Transbordo, visivelmente, e tu, audivelmente, tratas de me pedir que não pare de olhar para ti. (Referes o eu chinesa, e eu rio, dizendo que sim, já o ouvi.) Vamos tão longe na páginas web quanto já fomos outrora, rindo de tudo, como se nada fosse já aquilo nosso. Ou aquelas pessoas, aquelas memórias, aqueles tudos estranhos e hilariantes fossem colocáveis no presente. Mas são. Mudámos, e durante tanto tempo começamos por delirar enquanto vemos aquilo que daquela vez fomos (pelo que as imagens nos fazem imaginar). Tu, como sempre, lembras-te de tudo. Digo-te eu que acho não me lembrar de nada... A minha cabeça volta ao momento em que o Sol bate nas pedras portuguesas e nós subimos as escadas, a propósito do sítio de onde eu me perdi e tu dizes ser eu a pessoa mais inteligente e, opostamente, mais distraída que conheces. (Decidimos tratar-se de um elogio.) Mas contas... estás a contar, pormenor a pormenor, e eu vou-me recordando, rindo tanto quanto tu, e ficamos sentados na cadeira o tempo todo a divagar sobre tudo isso. Rimos demais. Achamo-nos brilhantes, e abraças-me. Ouço-te dizer aquelas palavras, enquanto te aperto o mais forte que consigo por entre os meus braços. Rimos, mais e mais e mais. Ligamos-lhe, gozamos com ela e com ele. Aí, os nossos olhos, tudo o mais e o que vejo já não é de olhos abertos. Fecho e abro os olhos como se tudo fosse um sonho e eu desconhecesse o caminho que me levou até este delírio. Já aqui estive, neste sítio, antes. Confessas, tudo na linha da conversa que talvez não esteja a acontecer na realidade, o que sentes que eu te faço. E eu, calando-me como se neste momento não soubesse a diferença entre o real e/ou o imaginado, faço o que eu imagino no meu delírio ser o meu ar de envergonhada. Pois, o que acontece é o espelho da distância entre os nossos delírios. (Sendo estes cada vez menos os nossos olhos.)
Que estupidez, já viste? Fujo de ti e levanto-me. Voltamos aos nossos eus, abraças-me no ar e caímos atrás de nós os dois. Já não existe espaço ou pombas, o que vejo não é mais do que os meus olhos a cerrarem com toda a força e eu a afastar-me de ti por achar tudo errado. Que estupidez, já viste? Tudo errado. Já nem sei o que estou a ver ou onde estou. Mas falamos. Falamos, sempre. O que dizes?, é só uma vez?.
O que sei é que o nosso futuro se entrelaça numa estupidez de gás lacrimogéneo e de lágrimas pela saudade. Numa incógnita de beijos roubados, num raciocínio em que te vejo a mostrares-me o que vivemos como me mostraste aquilo por onde passamos. Perguntamo-nos por que razão se entrelaça assim, e eu digo-te por entre estupidezes que é estúpido. São as saudades, no fundo, que fazem contares-me este sonho.
E, no final, faço a viagem toda a conter as lágrimas por nos irmos embora, e tu abraças-me, como se nunca fôssemos embora de verdade, (respondendo eu à tua pergunta com um acenar de cabeça, com o qual não traduzes um "sim, fico", mas um "por favor, não me faças chorar aqui"), beijas-me, abraças-me, voltamos ambos ao mundo real e sais do metro.
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