12/05/2012

Eu estou fraca e tu estás aqui. Saí agora daquele sítio, aquele onde despejei tudo o que de mau ia dentro de mim (ou, pelo menos, o mais passível de ser destruído). Sem qualquer nitidez no olhar, uso o meu vago rasgo de forças para me deixar cair no sofá. Parece-me, no milissegundo em que o decido, a decisão que menos me aproximará do mundo à minha volta. Esperas treze milissegundos e, no rasgo de força que é apenas a solidez da tua visão exterior, decides sentar-te ao meu lado. Neste sofá, no lugar à esquerda do meu. Sem qualquer tipo de nitidez no olhar, sinto o calor do teu corpo a abraçar o meu, tão lentamente quanto o consigo sentir. Não consigo abrir a minha boca, vazia de força mas plena de palavras. Levanto o olhar. Ao olhar para ti, tenho a certeza de que estás a compreender o que te digo. Tenho a certeza de que, ao olhares tão fundo em mim, consegues perceber que preciso de te confessar a minha imensidão de falta de força, que me conduziu a este momento. Estou fraca. Não consigo abrir os olhos, e no entanto olho-te. Estou muito abaixo de fraca. Estou a olhar para o fundo dos teus. Mas, antes de que um átomo dos nossos mundos se mova, preciso de te confessar, preciso mesmo, a minha fraqueza.
Sinto, acto contínuo, o teu abraço. 
Sinto, acto contínuo, o teu abraço.
Tudo o que sei é que o filtro dos meus sentidos está - numa palavra - vago. A assimilação não é consistente. Sei conscientemente que me falas. E por isso sei, conscientemente, que te respondo. A questão é que não te consigo dizer estar aqui. Estou aqui. Eu estou aqui. Continua a falar comigo, por favor. Sei que isso me vai ajudar. Peço-to, mas não me ouves. (Porque, obviamente, não tenho a força necessária que o transformar em palavras requereria de mim.) Anda, continua a embalar-me com a tua voz; peço-te que continues a fazer-me responder-te e abrir-me um pouquinho a ti. Mesmo que não o saiba e não o sinta, na totalidade. Falamos de algo que não sei, apenas sei evocar o vago. Esta conversa, em tudo inexistente na minha memória, sei dizer que está a acontecer. E está-me a fazer bem.
Há dez minutos que estou a percorrer o meu inventário de pensamentos e, enquanto o faço, estou a voltar a mim. Às minhas forças. Os pensamentos de que me faço crer ter não se espelham na conversa que estou a ter contigo, há dez minutos; os pensamentos que me percorrem fazem-me voltar a sentir e pôr no sítio devido as turbinas que captam os estímulos do mundo exterior a mim. (E o interior, consegues olhar para mim e dizer-me, onde anda - se não está aqui?...)
"Queres andar um pouquinho?", e pedes-me com a tua voz serena e grave que te acompanhe. Vejo-te a levantar do sofá, do lugar à minha esquerda. Pões-te de frente a mim, estendendo-me a tua mão - que, convenhamos, assim estendida à minha frente, enquanto eu me sinto vagamente consistente, me faz crer vagamente no desejo. Assinto, com os olhos. .... Agarro nela. Ajudas-me a levantar. Caminhas ao meu lado, conduzindo-me lentamente de forma a que eu sei que estou a pensar, concretamente, que o tinhas planeado previamente. 
Estamos no corredor que dá aos quartos. Estou encostada à parede. Está tudo escuro. Tudo escuro, como a noite lá fora. Curiosamente, não como na minha cabeça. Sei que os teus olhos me estão a dar arrepios (mas só me apercebi disso umas horas largas depois). Falamos, falamos. Falas. Eu escuto, uma percentagem menos vaga naquilo que assimilo do que dizes e do que está a acontecer e, contudo, continuo a responder-te em piloto automático. A fronteira daquilo que determinaria a incógnita das nossas acções no final da noite já tinha sido quebrada antes. Agora, limitamo-nos a sentir que estamos aqui, sozinhos neste corredor. Neste corredor, que vai dar aos quartos, sem saber bem o tempo nem o espaço que nos contingem. Estamos a meio da conversa e eu, ainda que ouvindo o que me dizes, embrenhada nos meus pensamentos e discórdias de emoção deixo-me deslizar pela parede, e sento-me no chão. Sei que isto é o máximo do conforto que já tenho sentido nas últimas semanas, senão meses. Perguntas-me se isto não é o quentinho que todos queremos. Assinto com a cabeça, e tu percebes nitidamente que o que estou a pensar é um "não quero querer concordar contigo". 
Apenas quando sinto as tuas duas mãos a deslizar pela minha cintura me apercebo de que a conversa é real. Esta conversa é real, eu consigo sentir-te, cheirar-te, e tu estás a falar para mim. Duas horas se passaram. E tu envolves a minha cintura com as tuas mãos, tão suavemente, e empurras-me em direcção a ti. Nem sequer resisto; não tenho forças para o fazer. Dás-me mil e um abraços, e agora é que me apercebo que já me tinhas dado uns mil e dois antes deste momento. E eu, afinal, não tinha resistido a ti fisicamente. Apenas me embrenhei nos nós mentais que estava a construir. E, afinal, vim a abrir-me a ti, durante todo este tempo, menos ou mais do que me apercebi. Mas o teu calor sabe-me tão bem. O teu respirar, no meu ombro, sabe-me tão bem. Não queres saber do sítio onde estamos nem do que estava planeado fazermos a seguir. Trocaste o dinheiro com ele antes de tudo, e reservaste a tua noite para mim. Prometeste à G. que me levavas a casa. Eu ouvi isso tudo, vi-te a fazer tudo isso, e só agora me apercebo. Estás aqui, e estás a abraçar-me. A cheirar o meu cabelo, a afagar as minhas costas. Meu Deus, estamos sozinhos há horas e estou confortável como nunca. 
Pergunto-te as horas. "São quatro e meia. Queres ir embora?" 
O metro está fechado. Começa a chover torrencialmente e, tu, como que tocando nos meus cabelos por magia, começas a cantar: "I'm only happy when it rains/I'm only happy when it's complicated". Olho para ti. Paro de correr. E sorrio-te sem saber muito bem como, mas não me impeço de te querer abraçar. Sem hesitar, abraço-te, com força, e sinto-me a ficar cada vez mais encharcada. (Caramba, tu sabes como me abraçar. Impedi-me de pensar em quem me fazes lembrar, neste instante.) E ficas assim comigo, impedindo-me de fugir de ti mesmo que quisesse. Ficamos assim, até que nos apercebamos novamente da chuva que cai em cima de nós. Decidimos correr, e fazes-me sentir que posso ter 12 anos de novo. (Não consigo esquecer a imagem de nós a correr em direcção ao S. João, com aquela chuva forte.) Já no táxi, olho sem expressão para o vidro da janela, sinto que tudo isto aconteceu. Sinto os teus olhos a desviarem-se na minha direcção; estás a olhar para mim. Continuo a olhar sem propósito para as luzes da cidade de noite, percorrendo com o olhar o trajecto das pingas de chuva que descem o vidro. E és apelidado de namorado e não mostras importar-te. Aí, fingimos ter ensaiado previamente que papéis desenrolar na eventualidade deste momento acontecer e conseguimos controlar o ambiente. Dou por mim a pensar o quão estranho tudo isto é. Uma noite destas não pode ser mais do que irrepetível. Deixas-me à porta de casa. Tudo isto é inevitavelmente estranho. (E, contudo, nunca to poderei negar, uma das noites mais saborosas que já vivi.)
Tudo o que fazemos é decidir procrastinar o fim da noite. Já na rua perpendicular, deixo-te correr. Sozinha, como sempre, interrompo o sentir e inicio a metamorfose sistemática e mecânica do sentir aliado ao pensar. Abrigo-me da chuva numa entrada de um prédio. Sinto-me abrigada da chuva, embora a ame. E, invariavelmente, começo a construir nós e estalactites na minha cabeça. Mas tu voltas. E, assim que te aproximas de mim, voltas a abraçar-me. ... Abraço-te até ao fim da noite, dás-me um beijo na testa.
Apenas não te sei dizer se, como tentaste adivinhar, tudo isto foi um estranho mau.

Sem comentários:

Enviar um comentário