28/06/2012

A mudança existe

Vivemos a maior parte da nossa vida a evitar acreditar que as coisas mudam. Não queremos acreditar, recusamo-nos, até, a acreditar que as coisas podem mudar. Que, de facto, a mudança existe. Fazemos os impossíveis para acreditar que os dias bons não acabam, que as noites não dão lugar ao dia. Erramos ao pensar que o sítio dos pratos no armário da nossa cozinha será permanentemente o que é hoje, que quem nos rodeia será sempre desta e daquela maneira. Erramos ainda mais por, iludidos, querermos acreditar que não toleraríamos certos acontecimentos na nossa vida, que a nossa reacção a determinada situação será, dentro de certos limites, sempre esta e não aquela. Sempre esta, e nunca aquela. (O inimigo sempre.)

Pois bem, nada de mais efectivo na vida do que o ciclo impreterível das mudanças.

Um dia, ao termos aberto os olhos e visto este mundo em que nos apercebemos ter sido colocados, instintivamente fomos aliciados pela mudança. Estamos programados geneticamente para que, nos primeiros meses da nossa vida, uma das alterações primordiais seja a de seguir objectos em movimento que passem pelo nosso campo de visão. Atentamos naquilo que mexe. Naquilo que não se fixa; naquilo que descreve trajectórias. Entendemos, inatamente, o benefício da mudança. Não pensamos nela, contudo. (E, quando me refiro a «pensar», entenda-se um raciocínio consciente e complexo de abstracção e consideração de hipóteses.) Vemos, então, a mudança como algo que existe. E que é independente do nosso poder.
Creio que a compreendemos desta forma, inicialmente, porque ainda não a vemos como nossa inimiga. Sim, a mudança é nossa inimiga. Com a mudança, mudam-se os espaços que nos são queridos. Mudam-se também os sentimentos que queremos trancar a sete-chaves. Mas que, com a mudança que nos é impossível de controlar, como a corrente de um rio que não pode deixar de correr, são levados para bem longe de nós. O que muda não somos nós, pensamos. Iludidos, devo desde já assinalar. 
Quando se vê, já perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram cinquenta anos.
E, com isto, cremos que a mudança é a grande culpada. E é. Porque não culpar a estúpida da mudança? Porque não culpá-la a ela, se o que nós queríamos era ter parado no tempo? Trancado os sentimento a sete-chaves. Imortalizado os sentidos no lugar que nos fez feliz. (Mas pergunto: fez ou faz? Se houvesse imortalização do tempo, não faria sentido falar no pretérito perfeito - ou outro qualquer tipo de conjugação verbal que o valha). Não nos culpamos a nós. Porque haveríamos? Nós não temos culpa de que o tempo não pare! Estamos completamente alienados de qualquer poder em impedir que a mudança, a estúpida da mudança, opere! O quanto queríamos que as coisas não mudassem. Que a nossa vida fosse controlada por um comando remoto. O controlo seria nosso. Seria nosso o poder de suprimir a passagem do tempo: teríamos a possibilidade de pressionar o botão "pause" e tudo faria sentido. Não existiria mudança.

Vamos imediatamente deixar esta possibilidade de lado. Seríamos ridículos se continuássemos um raciocínio descritivo em relação a algo tão não-concretizável quanto o poder-por-controlo-remoto-da-paragem-do-tempo-contra-a-mudança. Não, não é possível.
Sim, a mudança existe. 
Mas, oh, seria tão fácil de o compreender (como o meu professor de Psicologia nos explicitou uma vez, abrangendo com este verbo um sentido global do fenómeno; e não apenas um "entender" ou "mirar" deste) como é entender a exclusão deste poder-por-controlo-remoto-da-paragem-do-tempo-contra-a-mudança do espectro do possível porque usámos a sua refutação. Mas não. Temos dezanove, trinta, cinquenta e três, setenta anos e, que nem casmurros, fazemos os impossíveis para acreditar que a mudança não existe. Ela é uma coisa má. Nefasta para o compreender da nossa segurança e estabilidade pessoal.

Afinal de contas, quem muda precisa de se adaptar. O que muda não, porque subentende uma de duas crenças raíz: ou, por um lado, uma inconsciência de que foi objecto de mudança ou, por outro, uma compreensão (neste sentido global a que me refiro) do que mudou, do quanto mudou, e de tudo o que isso afecta. Daí que quem muda, por si, não necessite de se adaptar. Quem não foi avisado destas alterações - mais ou menos bruscas e repentinas - é que necessita de se amanhar. 

Já detectei muitas mudanças na minha curta passagem a que, bem, comummente decidimos chamar de vida (fenómeno que nada é senão um conjunto de sucessivas e imprevisíveis cataratas de mudanças). Faço parte do conjunto humano e, portanto, hipocrisia seria não admitir que acredito piamente na mudança. Não, não acredito nisto da mudança.
Sei que o mundo gira. Sei que tenho de mudar de casas. Sei que conheço pessoas novas e desconheço quem conhecia. Sei, também, que conheço a mudança. Mas não, não a quero aceitar. Não a quero olhar nos olhos. Porque ela é uma inimiga.

(suspiro)

No final, tenho de a aceitar. Se quero dar-me por detentora de uma vida que não funciona ciclicamente, temos que, não orgulhosamente, baixar as armas e olhar para a mudança de frente. Tal como, em bebés, reconhecemos o poder desenvolvimental daquilo que se move. 

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