30/06/2012

O amor é fodido, Miguel Esteves Cardoso

«Porque é que conseguimos foder com quem não amamos? Não haverá aqui alguma coisa de errado? Pensamos que o amor fica resguardado mas a verdade é que vai-se fodendo à medida que se fode.»


«O fim não tem tempo.
É fácil morrer quando está tudo acabado.
E deixar de ver as árvores.
E deixar de tocar os muros.
Quando os há.
O fim não tem pressa.
Nem significado.
Se ao menos fosse uma surpresa.
Ou um alívio.
Ou uma inevitabilidade.
Poderíamos rir.
Poderíamos concluir.
Poderíamos conversar.

Mas o fim não tem carácter.
Só há uma maneira de dizer isto.
Só damos por ele quando já é tarde.

Nós que nem sequer tivemos a consciência ou a angústia ou o prazer de pensar que houve uma vez em que ainda era relativamente cedo.»


«Nas mulheres que estão apaixonadas por nós - bom plural, este - «mas» muitas vezes quer dizer «por conseguinte». Quando Teresa dizia «És um cabrão mas eu amo-te», havia tanto amor no «cabrão» como no «amo-te». A única palavra que soava mal era o «mas». O significado verdadeiro da frase é: «És um cabrão e por isso eu amo-te.»
Versão comprida: «Como és parecido comigo e dás-me luta, atrais-me.»
As mulheres apaixonadas pensam assim. Incrível que pareça.
No fundo julgam que nós não temos culpa nenhuma. De nada. Elas determinam tudo. O mal e o bem. Nós não somos cabrões, mas sim indivíduos normalíssimos que não podem ficar com a mania que são bons. Ou importantes. Chateâmo-las, sim. Muito. Mas quem não?»


«Quero evitar o amor. Tal como quem anuncia que vai deixar de fumar, quero tomar publicamente esta decisão. O meu amor, que é tão grande que nem a vida chegou a conhecer, que se manteve apesar da morte que o rodeava constantemente, atacando-o quando podia, rindo-se dele, não passa de uma merda que me deu. Se o guardo ainda, é à falta de melhor, acreditem.»


«Uma coisa é certa. Amar uma rapariga faz-nos odiar as outras mulheres. Com as mulheres já não é assim. Vá lá alguém saber porquê - mas nunca há ninguém que vá.
Em contrapartida, o ódio atrai as mulheres. Sossega-as. Desafia-as. Diverte-as. Sei lá. Deve descansá-las e enfurecê-las verificar «Este palerma não quer nada de mim...»
Um homem desapaixonado é um verdadeiro homem. Como nos filmes. É duro, honesto, corajoso, insensível. Em contrapartida, os homens apaixonados ficam moles e tornam-se meninas. Mudam de voz. Fazem olhos de perdigueiro. Começam a gostar de doces. Têm ciúmes. Têm filhos. O que são os pais senão mães sem mamas, babás em segunda mão?»


«A verdadeira intimidade tem de ser ou inexplicável ou desinteressante.»


«As raparigas, depois de chorar, ficam com vontade de fazer amor. É como se tivessem apanhado uma carga de chuva. Ficam todas molhadas. Nós somos a toalha que está mais à mão. O turco maluco com que se embrulham e enxutam. É horrível, não é? Mas só um santo não se aproveitaria.»


«A Teresa estava sempre doente, por razões que nunca divulgava. Para ela, «doente» queria dizer «não num estado absolutamente perfeito e transbordante de alegria e boa disposição» - o que é severo. Estava sempre a dizer «Estou doente, mas sinto-me bem.» E depois acrescentava: «Trata-me.»
No dia em que a Teresa vestiu pela primeira vez o fato-de-banho azul-claro, comeu milho envenenado.»


«Tenho uma tristeza que ainda não conheço bem. Nova. Talvez seja feita de um excesso de trabalho ou de tempo. Talvez seja a tristeza de quem já não consegue estar feliz por mais tempo. Por mais tempo seguido.»


«Fugir não é muito diferente de sofrer. Seria bom se uma coisa ou um encontro pudesse ser adiado até ao desaparecimento. Se o mundo, em vez de redondo, pudesse ser esticado e ultrapassado.
Sobretudo quando estivesse feliz.»


«É difícil não se ser influenciado pela vida.»


«Claro que tenho o coração ensanguentado. É a única condição que nos faz falar do que nos cerca. É preciso estar muito triste para descrever seja o que for.»


«As pessoas não são felizes mas sofrem duma doença muito boa, que é a ideia da felicidade. Com quê. Com quem. Quando serei feliz? Porquê? Ninguém pergunta porquê.»



«Cada um tem o seu engano de estimação. O meu é o mais vulgar - é voltar atrás.»

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